Um Lugar ao Sol (George Stevens, 1951)
“Eu te amo. Eu a amei desde o primeiro momento em que a vi. Acho que talvez a tenha amado até antes de te ver.”

Geralmente é o dinheiro. Uma força que corrompe, destrói e vicia. Em Um Lugar ao Sol, porém, o roteiro apresenta uma escolha inusitada. A força que obriga o protagonista a pecar não é outra senão o amor, acompanhado pela perspectiva de uma vida melhor e mais confortável. O dinheiro está ali, obviamente, mas a sensação que fica é que George Eastman (Montgmomery Clift) age tendo como objetivo apenas o coração da bela Angela Vickers (Elizabeth Taylor).
A história é a seguinte: George é um parente pobre de uma família abastada, para o qual o tio consegue um posto inicialmente medíocre em sua empresa. Rapidamente quebrando uma das regras do serviço, se apaixona por uma funcionária, que vê nele o seu porto seguro de subsistência. Porém, conforme ascende de posição, tanto na empresa quanto no seio da família, George percebe que a namorada sem graça e exigente (Shelley Winters) é um obstáculo para seu sucesso.
O fato de que George teve uma criação religiosa interfere em seu comportamento, que é tímido e um tanto resignado. Apesar de posteriormente maculado, o amor por Angela (uma jovem da alta sociedade) se mostra surpreendentemente puro e desinteressado. Ao mesmo tempo, a relação com Alice Tripp (a namorada), tem um quê de obrigação, de derrota. As atuações são apaixonadas e verdadeiras, com destaque positivo para a interpretação perturbada de Clift e para a personagem de Winters, que vai ganhando contornos cada vez mais sombrios e possessivos.
Para demonstrar o grau de intimidade de George com Angela, o diretor George Stevens utiliza um recurso que provavelmente aparece aqui pela primeira vez no cinema hollywoodiano. Nas cenas em que os dois conversam, filma o close do rosto de um deles por trás do ombro do outro. Assim, passa a impressão de que somos intrusos na conversa, de que a espionamos por cima dos ombros. Além disso, serve para incluir uma parte dos dois em cada frame, entrecortando o rosto de um deles, como se ambos se completassem.
A alta sociedade é retratada de maneira incomum. Incomum porque não é um antro de perdição, não é uma vivência de futilidades, mas apenas uma forma de vida como qualquer outra. O próprio George não parece ligar muito para ela, considerando-a apenas como um pano de fundo para a realização de seus sonhos.
O filme é, talvez, tão impiedoso quanto os pensamentos mais íntimos de seu protagonista. São sua covardia e apatia, na verdade, que o impedem de cometer um ato execrável. As pistas que deixa por todos os lados são a prova de seu caráter mal resolvido e confuso. Mas é quase impossível sentir algo que não seja dó por George Eastman. O desejo de amar e ser feliz nele é mais forte do que qualquer outra coisa. E sua resignação frente aos obstáculos mostram o quanto sua força de vontade é fraca.
No final, o filme deixa uma dúvida. O que importa mais? Ser culpado aos olhos de Deus, perante a Justiça ou para sua própria consciência? Eu não sei, mas George, em algum momento, deve ter descoberto a resposta.
E O Vento Levou (Victor Fleming, 1939)

Cenários gigantescos, quantidades absurdas de figurantes, quase quatro horas de duração, gastos de produção exorbitantes, bilheteria astronômica. É por essas e outras razões que E O Vento Levou pode ser considerado o filme-síntese e a maior (realmente em termos de tamanho) produção da Era de Ouro Hollywoodiana. Para mim, nenhum outro filme poderia representar melhor a magia do cinema da época. Ou a forma como imagino que ele deve ter sido.
Toda e qualquer fala do filme parece estar sendo declamada, como em um poema de amor. As cores artificiais do Technicolor são fortes e opulentas. A história, apesar de trágica, apresenta aspectos cômicos até nas ações mais mesquinhas de sua protagonista. Em sua maioria, os principais personagens são bons e virtuosos, com as interessantes exceções de Scarlett O’Hara e Rhett Butler. Aliás, o que seria do filme sem Scarlett? Esse, que foi um dos papéis mais disputados da história do cinema, elevou a jovem atriz Vivien Leigh de praticamente desconhecida a uma das maiores estrelas de Hollywood.
Ela começa como uma garota interesseira e mimada (características que nunca abandonará totalmente), centro das atenções dos homens por sua vivacidade. É impossível não ser apaixonado por ela, desabafa Ashley Wilkes, por quem Scarlett é obcecada. Com a Guerra da Secessão, é obrigada a amadurecer, tornando-se uma mulher forte e objetiva, apesar de também egocêntrica e calculista.
A passagem do tempo é essencial para o desenrolar da trama. A sucessão de situações financeiras dos principais personagens também. Apesar de se passar durante a guerra, o filme fala pouco sobre ela, com a exceção de alguns comentários sobre a sua inutilidade e a gradual passagem de um otimismo exagerado para uma derrota completa por parte dos sulistas
Trata-se, também, de uma obra sobre perdas. A vida, os amigos, a inocência, a família, a honra, as terras. Tudo isso se esvai pelos dedos de Scarlett, por mais que ela tente reter alguns grãos das glórias passadas. O que ela recupera, depois do notório juramento de jamais passar fome novamente, é conseguido por caminhos tortuosos e escusos, o que garante uma sombra de indignidade a todas as suas conquistas. Porém, aos olhos do espectador, Scarlett nunca deixou de ser uma menina, agindo por impulso e de maneira egoísta, mas ainda assim sob a visão do que ela imagina ser o bem comum.
A colocação das terras de Tara no cerne das preocupações de Scarlett garante um caráter mais sentimental à forma como age, diminuindo a culpa por atitudes condenáveis, como roubar o marido da própria irmã ou aceitar funcionários presidiários, para aumentar seu lucro pessoal. Ela e Rhett são pessoas únicas dentro da história e, por isso, estão fadados a ficar juntos. A teimosia de Scarlett é completada pelo charme e ironia do personagem, que é vivido pelo bigodudo Clark Gable.
Mas, afinal, por que o filme merece estar nesta lista? Por um simples motivo: tudo é absolutamente lindo. E essa beleza não vem de um ou dois fatores separados, mas da obra como um todo. A trilha sonora (que ouvi pela primeira vez como música-tema do Professor Girafales e Dona Florinda) ajuda muito, porque combina à perfeição com aquilo que está sendo mostrado e porque é utilizada sem exagero, apenas em pontos-chave do filme. Na verdade, perfeição é a palavra. Não há um só momento desnecessário ou desperdiçado, o que é uma conquista considerável dentro de uma obra tão longa.
Da primeira vez que assisti, vi as duas partes separadamente, com medo que o filme ficasse cansativo. Desta vez, vi de uma vez só. E, contrariando sua grande duração, termino meu comentário por aqui. Foram 3 horas e 58 minutos deliciosos.
Os 100 Filmes Que Mudaram a Minha Vida – A Lista
“Nós sempre teremos Paris”, disse certa vez um charmoso Humphrey Bogart a uma preocupada Ingrid Bergman, naquela que é uma das cenas mais representativas do cinema. O que vou tentar fazer é reconstruir a minha Paris cinematográfica. Eu não procurarei resgatá-la - porque ela nunca correu o risco de ser esquecida -, mas reencontrá-la. Depois de 20 anos de existência, é uma tarefa no mínimo difícil escolher os 100 filmes que fizeram mais diferença para a sua vida. Aos 80, deve ser quase impossível.
Nem todos os filmes dessa lista são grandes filmes. Alguns nem sequer são bons. Mas procurei me manter fiel ao conceito original, que é: filmes de que sempre vou me lembrar. É verdade, eu posso ter me esquecido de colocar um ou outro que também adoro. Mas, se esqueci, talvez ele não fosse assim tão importante. Há algumas anomalias. Há alguns filmes consagrados. Isso não importa.
Portanto, começando da próxima, assistirei um filme por semana, cujo DVD (ou Blu-Ray. Quem sabe?) vou adicionar à minha parca videoteca. A idéia é reconstruir uma parte da minha vida. Portanto, não pretendo escrever críticas ou comentários convencionais, já que este não é o objetivo do projeto. Os textos ficarão arquivados na tag 100filmes, no menu ao lado. Mesmo sem querer, o primeiro texto, sobre o Rei Leão, já foi publicado. A ordem da lista é meramente ilustrativa. Faltam 99. Qual será o próximo?
O Rei Leão
Snoopy, Volte Pra Casa
Jumanji
Donnie Darko
A Árvore da Vida
Melancolia
Branca de Neve e os Sete Anões
A Bela e a Fera
A Felicidade Não Se Compra
E O Vento Levou
Cinema Paradiso
Dogville
O Sexto Sentido
Asterix e Cleópatra
Conta Comigo
O Poderoso Chefão
Desejo e Reparação
Na Natureza Selvagem
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2
Nosferatu: Uma Sinfonia do Horror
O Picolino
Cantando na Chuva
A Mulher Faz o Homem
Clube da Luta
Um Estranho no Ninho
A Lista de Schindler
Laranja Mecânica
Caminhos Perigosos
ET: O Extraterrestre
Space Jam
O Iluminado
Ensina-me a Viver
A Espada era a Lei
Pulp Fiction
Todo Mundo em Pânico
Fantasia
Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas
O Nascimento de uma Nação
Homem-Aranha
Marley e Eu
O Estranho Mundo de Jack
James e o Pêssego Gigante
Três Homens em Conflito
Janela Indiscreta
Pagemaster – O Mestre da Fantasia
Esqueceram de Mim
O Demônio da Algéria
O Exorcista
Tropa de Elite
Titanic
A Viagem de Chihiro
Tiros em Columbine
Grease
E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?
Coração de Dragão
Uma Cilada para Roger Rabbit
Forrest Gump
História Sem Fim
O Exterminador do Futuro 2
Um Sonho de Liberdade
A Vida é Bela
O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel
A Corrida do Ouro
Entrando Numa Fria
Melhor é Impossível
O Cão e a Raposa
Indiana Jones e o Templo da Perdição
2001: Uma Odisséia no Espaço
Toy Story
Up – Altas Aventuras
Piaf – Um Hino ao Amor
O Show de Truman
Pinóquio
Watchmen
Curtindo a Vida Adoidado
Apocalypse Now
Mogli
À Espera de um Milagre
Metrópolis
101 Dálmatas (desenho)
Crepúsculo dos Deuses
Edward Mãos de Tesoura
Feitiço do Tempo
Casablanca
Guerra nas Estrelas
Rocky Horror Picture Show
Os Imperdoáveis
Meu Ódio Será Sua Herança
A Mosca
Poltergeist
Réquiem Para um Sonho
Suspiria
Táxi Driver
Tempos Modernos
Trainspotting
Tubarão
Veludo Azul
Brinquedo Proibido
A Montanha dos Sete Abutres
Fellini 8 1/2
O Rei Leão (The Lion King, 1994)
Um ciclo sem fim

17 anos são muito tempo e, novamente como Simba, eu cresci ao voltar à imensidão contemplativa que é o reino dos leões. Cresci tanto, que, à primeira nota do Ciclo Sem Fim, não consegui evitar as lágrimas, que teimaram em escorrer pelos lados dos óculos 3D. Reviver a infância geralmente tem esse efeito. É incrível o poder que as canções possuem no filme. Nenhuma delas é menos que majestosa.
Apesar de estar associado à juventude de muita gente, O Rei Leão não é tanto um filme para crianças quanto a maioria das produções da Disney. Pela primeira vez, um personagem da produtora morria em cena, vítima de uma maquiavélica trama de um membro de sua própria família. Há muito de Shakespeare na história da sucessão de tronos. Também há romance, drama, comédia, épico. Elementos sobrenaturais tomam forma através do macaco Rafiki.
A culpa leva Simba a tentar esquecer o passado. O sol, associado ao ciclo da vida e da morte, não brilha sobre o cinzento reinado de Scar. Todos estão famintos. Simba precisa voltar, para que tudo retorne aos seus eixos. A criança ao meu lado boceja e pergunta para a mãe se o filme já vai acabar. Ela não consegue acompanhar a trama razoavelmente intricada. A criança dentro de mim se sente indignada, mesmo sabendo, bem lá no fundo, que antes também não entendia todas as nuances que faziam de O Rei Leão um dos filmes mais belos da sua geração.
Pode parecer lugar-comum, mas este é um filme totalmente diferente dependendo da idade em que você o assiste. Me parece ainda mais bonito hoje, o que justifica o fato de ser também voltado a um público mais velho.
O 3D é indiferente, não ajuda nem atrapalha. A primeira cena, a mais bela abertura do cinema, encontra um eco interessante na última sequência, quando o ciclo da vida, antes interrompido, é novamente retomado. O ritmo do filme sabe intercalar momentos de tensão com cenas mais descontraídas, muitas vezes engraçadas. Momentos maravilhosos não faltam, e até sobram. Não consigo me lembrar de uma única cena fraca.
Este não é o meu real primeiro contato com o cinema. Me lembro pouco da primeira vez que assisti. O Cão e a Raposa é um filme muito mais representativo do início da minha infância. Mas nenhum me marcou mais do que O Rei Leão, porque foge da ingenuidade geral das animações e parece pensar que crianças podem lidar com assuntos mais sérios, como a morte, a traição e a culpa. Os grandes filmes da Disney também seguiram essa linha de pensamento, que foi reencontrada com sucesso no advento da Pixar.
Percebi que pagaria sem remorso mais ingressos para assistir a história do pequeno leão, que evolui de jovem rebelde a rei. Poderia falar isso de pouquíssimos filmes, que mantiveram seu encantamento até os dias atuais, mesmo com as limitações técnicas que possuíam. O Rei Leão não só faz isso como suplanta todas as animações produzidas atualmente. E não digo isso levianamente, embalado por algum sentimento nostálgico. Digo porque encontrei hoje um filme ainda mais fantástico e vivo do que aquele que havia assistido há 17 anos atrás.
Frank Capra + James Stewart – Parte 3
A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington, 1939)

“Esta é a mais titânica batalha dos tempos modernos. Um Davi sem nem mesmo um estilingue luta contra o poderoso Golias, a máquina de Taylor, alegadamente desonesta por dentro e por fora. Sim, e por meu dinheiro, você pode cortar fora o ‘alegadamente’.”
A Mulher Faz o Homem contém provavelmente a melhor sequência de cenas que já vi em um filme. Ela está na segunda metade do longa, quando o senador Smith (James Stewart), praticamente derrotado, obriga todo o quórum do Senado a escutar seu discurso sobre princípios e ideais há muito esquecidos. Enquanto isso, o filme intercala cenas de cobertura tendenciosa da imprensa, ao passo que o único veículo que apoia Smith sofre dura repressão e é retirado de circulação.
Smith não pode parar de falar. Se parar, será destituído de seu cargo e, possivelmente, condenado à prisão. Por isso, discursa como se sua vida dependesse disso, lançando mão de um ou outro comentário irônico enquanto prossegue. Sua secretária (Jean Arthur) o auxilia, encontrando furos e artifícios da lei que venham em seu socorro. Ela é um dos exemplos da mudança que Smith representou para o sistema. A princípio cética, se apaixona pelas ideias e propostas do senador, além de gostar bastante da sua pessoa de carne e osso. Ao final, cansado, ele se move apenas pela fé, e quando também ela deixa de existir, vai exausto ao chão.
Jefferson Smith não é um personagem original. O modelo para ele já está por aí há muito tempo e pode ser facilmente encontrado na literatura, em livros como O Idiota, de Dostoiévski e Admirável Mundo Novo. Smith é ingênuo, acredita na bondade dos homens. Acredita, principalmente, na história política dos Estados Unidos e nos ideais de honestidade e retidão norte-americanos. Essa ingenuidade é o que o leva a ser nomeado senador, em primeiro lugar.
Porém, sua inocência só é considerada um ponto positivo porque pode transformá-lo em um joguete nas mãos dos políticos mais experientes e conscientes da podridão existente no sistema. Smith parece então um turista, visitando os principais pontos de Washington, e só incomoda os outros por se interessar em aprender as regras do ofício em que acaba de entrar. Sua figura, na verdade, é considerada ridícula e não se perde a oportunidade de zombar dele. Zombarias essas que lhe passam despercebidas.
Sempre acharei uma injustiça que Stewart não tenha ganhado o Oscar por seu papel neste filme. Não assisti Goodbye, Mr. Chips e não dou a mínima se Robert Donat teve a melhor atuação de todos os tempos. Stewart não vai deixar de merecer um prêmio por este filme. A meu ver, o ator está em sua melhor interpretação, tanto quando retrata apenas um caipira deslumbrado quanto durante o crescimento de seu personagem, que passa a dar uma verdadeira lição de moral em pessoas muito mais experientes do que ele.
Na época, o filme parece ter sido visto sob a ótica de uma crítica ao Senado norte-americano. Também é isso. A história, porém, vai além, e engloba as estruturas de poder como um todo. É novamente a figura do indivíduo contra movimentos acima de suas forças. A iniciativa individual é a única salvação para um sistema essencialmente corrupto. O senador Paine (Claude Rains), como o idealista que se deixou comprar, é a mangueira de escape para o regime, que cai frente à consciência pessoal e à honestidade de cada um. E a maior mágica dos filmes de Capra é essa. Uma pessoa sempre pode fazer a diferença. E faz.
Planeta dos Macacos: A Origem (Rupert Wyatt, 2011)

O final chocante do primeiro filme do Planeta dos Macacos trazia uma mensagem bastante clara: a humanidade vai acabar por destruir a si mesma, levando consigo parte do mundo em que vive. Porém, durante os mais de 40 anos desde seu lançamento e diversas continuações de qualidade questionável, de alguma forma, essa ideia se diluiu. E agora, em 2011, o filme que deveria explicar a origem desse mal está mais preocupado em exibir seus belos efeitos especiais (uma caracterização de símios que apresenta interessante oscilação entre o realismo e a humanização) e cenas de destruição protagonizadas por macacos irados. De fato, segundo o filme, o único grande defeito da humanidade parece ser maltratar os macacos e utilizá-los como cobaias.
O roteiro opera com algumas obviedades. Exemplo: Will (James Franco) trabalha incansavelmente em busca da cura para o Alzheimer. Portanto, pode apostar que o pai dele sofre da doença. Outro exemplo: apesar de cuidar de um abrigo para macacos, a família Landon simplesmente odeia os animais. Mas, claro, os bichos precisavam de uma justificativa para se rebelarem.
Outro fator interessante é que os personagens humanos, sem exceção, são bastante mal desenvolvidos. A namorada Caroline (Freida Pinto) parece ter a única função de ser bonita e estar na tela (ah, e também de compor sozinha todo o elenco feminino do filme). O amigo cientista Robert (Tyler Labine) é descartado com incrível facilidade. O pai é apenas um elemento de cena, que muda da demência para a não demência sem que o espectador perceba alguma diferença. O chefe de Will quer ganhar dinheiro, o que não justifica a trágica punição que recebe mais tarde. O próprio Will é incrivelmente unidimensional. Sabemos que ele é bondoso, sabemos que se preocupa com os outros. E é só isso que sabemos.
Não é nenhuma surpresa, portanto, que os olhos se voltem para o único personagem carismático da trama: o macaco César. E sim, ele é uma criação digital, mas me arriscaria a dizer que Andy Serkis faz um grande trabalho em conjunto com a tecnologia de captura de movimentos. Não sei quem contribuiu mais para a simpática figura de César, mas esse alguém merece grandes elogios. São os olhos, acima de tudo, que dizem aquilo que mesmo a fala por gestos não é capaz de comunicar. Como o filme se foca substancialmente nele, consegue se manter interessante durante praticamente todo o tempo.
Eu não tinha ideia que macacos eram tão inteligentes. Ok, alguns deles estavam sob o efeito de drogas que aumentam as capacidades da mente, mas um que não estava consegue manter um diálogo de gestos totalmente dentro das capacidades humanas. E ele até sabe o que quer dizer a palavra circo. Mas, é claro, é a mesma suspensão de descrença necessária para engolir toda a história do filme. Na verdade, esta mostra-se uma pílula bastante fácil de digerir.
Planeta dos Macacos: A Origem não procura ser profundo ou ter o mesmo efeito devastador da conclusão do longa original. Busca, isso sim, ser um espetáculo de entretenimento crível, na medida do possível, e com um fiapo de crítica social. Ele não tenta fazer com que tenhamos raiva da humanidade. Quando vemos os símios destruindo San Francisco, o que faz com que torçamos por eles não é um senso de justiça contra nossa espécie, mas o fato de que estamos acompanhando a jornada de César. Nada seria mais natural do que esperar uma vitória sua no final.
O interessante é que, em sua conclusão, o filme estabelece as bases para uma continuação, ao mesmo tempo que a torna virtualmente desnecessária, pois conta tudo aquilo que precisamos saber. Mas, pelos números da bilheteria, não há dúvidas de que haverá uma continuação. E talvez mais uma, para formar uma trilogia.
Nota: Após uns 40 segundos de créditos finais, há uma cena adicional de alguma importância. Se você sair correndo da sala, pode perdê-la.
Em breve: 100 filmes que mudaram minha vida

Ok, ok, o nome já fala por si só, pelo menos em parte. É uma iniciativa que vai tomar muito de meu tempo e do meu dinheiro (sim, depois explico porque) e provavelmente falarei pra uma plateia quase vazia. Mas é um projeto (uma ideia, na verdade) antigo, que eu devo pra mim mesmo. Se ninguém mais ler ou acompanhar, fica como uma espécie de diário pessoal.
Antes de começar, preciso fazer algumas coisinhas. Escrever a terceira parte do tópico Frank Capra + James Stewart, por exemplo. Devo dar início já na próxima semana. Depois, fica uma semana parado, porque estarei fora, e aí vai a todo vapor.
Meu Tio (Jacques Tati, 1958)

Jacques Tati é uma daquelas pessoas que têm que atuar pouco para se tornar uma figura icônica. Em meio à educação exagerada de seu personagem; aos seus gestos expansivos; às suas mãos sempre amparando as costas, como a matutar qualquer coisa; ao cachimbo, constantemente sambando em seus lábios; e também ao seu pouco uso da palavra, nasce uma persona cinematográfica quase descuidadamente carismática, que interpreta a sua própria caricatura através do Sr. Hulot.
O humor aplicado por ele em seus filmes é contemplativo, vagaroso, feito de situações engraçadas que levam diversos minutos para que sua comicidade se faça entender. Em comparação com As Férias do Sr. Hulot, filme anterior de Tati e primeiro do personagem, Meu Tio é uma evolução em termos narrativos. Naquele prevaleciam as situações sucessivas, sem um braço narrativo para puxá-las. Neste, o fio da história é muito mais grosso, embora a força do filme ainda se faça através de momentos isolados.
O Sr. Hulot é novamente um cavalheiro simpático, invariavelmente desastrado, que incomoda muito e agrada ao mesmo tempo. Desta vez, ele é tio de um menino encapetado, cujos pais vivem às voltas com uma casa lotada de novos inventos tecnológicos, que quase nunca funcionam como deveriam. Aliás, não se sabe para que muitos deles servem exatamente.

Apesar da crítica evidente à mania de modernidade, o filme se diverte mais em explorar a mecânica da casa e de seus habitantes do que em traçar um comentário mais profundo sobre o assunto. Fica claro que todas as geringonças têm uma função muito maior do que aquelas inerentes a elas: a ostentação. Por isso, mais do que depressa, a dona da casa convida vizinhos e amigos para conhecer as maravilhas da “casa do futuro”.
Hulot é uma espécie de agente de destruição desse conceito de moderno. Ele mesmo um cavalheiro no melhor estilo Dom Quixote de La Mancha, acaba destruindo muitos dos objetos e elementos da casa, junto com as boas maneiras que os convidados mantinham para com ela.
No momento em que os pais do garoto apreciam quietos um concerto de violino, Hulot e o sobrinho se divertem pelas ruas com um grupo de indivíduos encontrados ao acaso. Enquanto os dois primeiros precisam afirmar para si mesmos que o que viram havia sido divertido, tio e sobrinho chegam em casa entoando a canção principal do filme, em uma excitação que não admite dúvidas quanto à sua felicidade.
A casa é muito bem composta visualmente. Um peixe jorra água no quintal assim que alguém aponta no portão. O caminho para se chegar à entrada dá uma volta imensa no jardim, exemplificando a falta de comodidade de tudo o que existe ali. O sofá é duro e desconfortável, apesar de seu design futurista. Como que oprimidas pela figura da casa, as conversas entre as pessoas soam falsas e inúteis. Pelo menos até a chegada de Hulot.
Apesar do tom um tanto nostálgico, de tristeza pelo que se perde para o futuro, o filme reserva uma mensagem interessante para a cena final. Talvez o mundo não esteja assim tão descarrilado quanto Tati que fazer parecer.
Super 8 (J.J. Abrams, 2011)

A nostalgia é uma mania. Pegar desenhos esquecidos, textos, cartas de amor antigas é quase como reviver um pouco do passado. Assim acontece também com músicas e filmes que marcaram uma época. O que J.J. Abrams faz aqui, porém, não é tão fácil quanto parece. Em Super 8, ele retira da estante empoeirada dos anos 70 e 80 um filme que nunca esteve lá para começar.
Super 8 é um formato cinematográfico que nasceu nos anos 60 para substituir os antigos filmes de 8 mm. E é o equipamento utilizado por Joe (Joel Courtney), Alice (Elle Fanning), Charles (Riley Griffiths) e uma penca de amigos nerds e esquisitos para rodar seu filme trash de zumbis em uma pequena cidade interiorana no ano de 1979. No entanto, eles acabam presenciando um acidente de trem (que não é exatamente um acidente), em que uma criatura misteriosa é posta em liberdade na pacata cidadezinha onde vivem.
Tudo se parece bastante com os filmes de aventura de Spielberg feitos na mesma época em que se passa o longa. Chega a dar um frio na barriga. Mas não é, de modo algum, uma cópia. Abrams opta por uma narrativa mais violenta e personagens menos ingênuos para compô-la. Seria impossível imaginar um alienígena tão assustador nos primeiros filmes de Spielberg, por exemplo.
As crianças têm atuações interessantes, com destaque absoluto para Fanning. Até na gravação do filme de zumbis, ela é o grande trunfo. Charles é o clássico gordinho amigo do protagonista. E Joe é a peça central, embora se demonstre, a um olhar mais profundo, um personagem bastante raso. A princípio, é definido como o pobre garoto que perdeu a mãe em um acidente. Depois, descobre-se que ele é um fanático por monstros, maquiagem e tintas em geral. Aquele velho arquétipo do artista, que atrai as mulheres por sua sensibilidade. E é apaixonado por Alice. Arriscar outra característica fora disso seria como dar um tiro no escuro.
O filme vai bem durante seus dois primeiros terços, em que vemos a situação da cidade se agravando, com acontecimentos tão estranhos quanto uma fuga em massa de cachorros e estranhos roubos de quinquilharias inúteis. Até aí, o filme está com uma excelente terceira marcha engatada. Depois, Abrams pula direto para a quinta e não tira mais o pé do acelerador. Conflitos profundos são resolvidos em um piscar de olhos (ou nem sequer mencionados), os principais vilões (o ET e o Coronel Nelec) são facilmente neutralizados e, enfim, tudo acaba sem grande entusiasmo.
Uma das coisas de que Spielberg podia se gabar era de conceber grandes finais. Para pegar apenas dois de seus principais longas com temática parecida, temos ET e Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Em ambos, nas cenas finais, a partida da espaçonave vinha acompanhada de uma emoção cuidadosamente construída durante todo o filme. Em Super 8, a conclusão é desleixada, quase burocrática.
Um amigo costumava me dizer que o final é o coração de um filme. Nesse caso, o coração de Super 8 é como o de uma pessoa à beira da morte. Lutando para resistir, mas sendo finalmente engolido pela paralisia do ostracismo. Mas é bem verdade que as cenas durante os créditos garantem um último suspiro ao moribundo.
A Árvore da Vida (Terrence Malick, 2011)

Em A Árvore da Vida, de Terrence Malick, há quase sempre um sol brilhando na parte superior da tela, iluminando o rosto dos personagens que a obra retrata com tanta delicadeza. Ele parece ter sido colocado ali para nos lembrar da existência de uma força superior, regendo os acontecimentos e rumos daquelas vidas. E é justamente a vida o principal assunto do filme: o nascimento, o desenvolvimento e a morte, não necessariamente nessa ordem.
Pode parecer pretensioso comparar o nascimento de um ser humano à gênese da Terra, mas é exatamente isso que Malick faz aqui. E a pretensão, se existe, passa despercebida em meio ao tratamento que é dado à história. Enquanto Melancolia, de Von Trier, mostrava a insignificância do ser humano frente à imensidão do mundo (e de seu fim), o caminho em A Árvore da Vida é totalmente inverso. Em algumas sequências belíssimas, que trabalham principalmente com texturas estupidamente nítidas, a Terra toma forma e ganha seus primeiros habitantes, que evoluem até se tornar dinossauros, já nossos velhos conhecidos. O filme cobre assim bilhões de anos em alguns poucos minutos.
O visual das cenas passadas durante os anos 50, que acompanham o crescimento do menino Jack (Hunter McCracken) e seus dois irmãos em uma casinha de uma cidade de interior norte-americana, é nada menos do que grandioso. A câmera cambaleante, que mostra cenas cotidianas da família O’Brien em uma fotografia de cores fortes, gera o visual mais impactante de todos os filmes de Malick e certamente um dos melhores já vistos no cinema.
As crianças são retratadas sem afetação, com traços típicos da infância. Elas não parecem mais inteligentes ou emocionalmente desenvolvidas do que deveriam ser. O jovem McCracken é de longe o destaque de atuação do filme, com o rosto expressivo se modificando naturalmente da bondade para alguns sentimentos mais baixos e menos nobres.
A Árvore da Vida é um filme de poucas falas, em sua maioria ditas pelo Sr. O’Brien (Brad Pitt), em ordens e tentativas de passar seu conhecimento mundano aos filhos. Em murmúrios, membros da família dão o tom aos pensamentos dos personagens, que se questionam quanto aos seus fracassos, dúvidas e esperanças interiores, trazendo novamente à tona a propensão à narrativa em off de Malick.
Resolver questões pendentes com o seu próprio eu, com os pais, com um irmão morto precocemente. Aceitar é a palavra. E é impressionante que a mente de Jack na idade adulta (vivido por Sean Penn) faça isso tudo em um só dia. Mas nos esquecemos então da forma como trabalha a memória, que pode cobrir saltos gigantescos de tempo em alguns segundos. Jack vive novamente sua infância, assim como fazemos tantas vezes quando chegamos à idade adulta.
Toda a obra é uma reflexão sobre a vida, sobre os laços familiares, sobre os desígnios de uma força muito maior do que tudo isso. O que é a morte para uma criança? Como ela lida com a autoridade do pai e concilia esse sentimento ao tratamento plenamente amoroso dado pela mãe? Em que momento surgem a malícia e o egoísmo no ser humano? Até que ponto os pais procuram instilar seus próprios desejos e frustrações nos filhos? São todos esses questionamentos que o filme faz e se diverte ao deixar as respostas totalmente abertas para interpretações.
Não é um filme para ser visto somente uma vez. Talvez a segunda também não chegue a dar conta do recado. Trata-se de um projeto ambicioso, que procura abraçar coisas demais, e consegue, ao menos dentro de sua própria lógica. É uma obra sobre reconciliação e cicatrização de antigas feridas, feito por alguém que abraça a vida com o reconhecimento de todos os problemas e incertezas que ela contém. Em tempos de grandes blockbusters, A Árvore da Vida ultrapassa o status de uma agradável surpresa e alcança o patamar de uma obra altamente autoral e original, que pode vir a definir o melhor da produção cinematográfica do ano de 2011.